Me too: Eu também sofri assédio sexual



Quando eu tinha onze anos, usava o uniforme do colégio folgado e nem tinha começado ainda a desenvolver corpo de mulher, um homem que trabalhava de carregador no mercado perto de casa começou a me chamar de gostosa e delícia enquanto caminhava de volta para casa. Ele sabia o horário que voltava pra casa da escola, por isso ficava me esperando quase todos os dias do lado de fora para falar essas coisas para mim. Até o dia que mudei o caminho que fazia (bem mais longo) por medo. Eu era criança e não entendia o que estava acontecendo.

Aos doze anos, enquanto esperava na fila de um brinquedo num parque de diversões, um homem achou que seria engraçado acariciar o meu corpo pela grade e contar para os amigos, dando risada. Não falei para ninguém por medo e descobri o significado da palavra vulnerabilidade.

Aos dezoito anos, enquanto buscava pelo meu primeiro emprego, um homem da minha família sentou comigo e explicou que no ambiente de trabalho, infelizmente, eu teria que lidar com chefes e colegas de trabalho que dariam em cima de mim, fariam sugestões de que deveríamos dormir juntos e que tentariam tirar proveito de mim por ser mulher. Ele falou que eu deveria ignorar esses avanços sexuais e fazer o meu trabalho, já que isso infelizmente é normal. Ele estava certo: Eu recebi cantadas no trabalho, mas ele estava errado no que condiz à normalidade. Não, assédio sexual não é normal.

Enquanto lia as notícias semana passada sobre o Harvey Weinstein, fiquei pensando nas minhas próprias experiências. Quando é que assédio sexual se tornou parte de ser mulher? Por que é que normalizamos tanto essas experiências horrorosas para explicar que ser mulher é ter que passar por esse tipo de coisa? Quando é que isso se tornou aceitável?

Se você falar alguma coisa, não sabe se divertir e fazer piada. Se não falar nada, porque é que esperou tanto tempo? Quer destruir o casamento de alguém por inveja? Tem algo a esconder? Deve ter gostado e só está falando agora porque se arrependeu.

"Uma das coisas mais cruéis sobre esses atos é a forma como eles se enredam e tentam contaminar todas as melhores coisas sobre você," disse a Jia Tolentino no New Yorker. "Se você é doce e amigável, você vai pensar que a culpa é sua por criar a situação. Se você é durona, bom, você pode só seguir adiante e decidir que não é nada demais. Se você é uma pessoa gentil, então ele sabia que você é fraca. Se você é talentosa, ele pensou em você como uma igual. Se você é ambiciosa, estava pedindo. Se você é experiente, você sabia que estava por vir. Se você é afetuosa, então parece que é porque estava pedindo por isso. Se você faz piadas irreverentes ou se diverte nas festas, por que é que está sendo tão moralista? Se você é inteligente, vai descobrir uma maneira de racionalizar tudo isso."

Eu não tenho a resposta para o que deve ser feito—Ser mais durona? Criar melhores homens?—mas sei que, ao compartilhar nossas experiências, tiramos a normalidade desses horrores a trazemos à tona a frequência com que isso acontece. Criamos uma comunidade de mulheres fortes que buscam destruir o tabu que é o assédio sexual. Nossas experiências tem o poder de desmoronar, aos poucos, a racionalidade das agressões sexuais.

Nesta semana, mulheres do mundo todo estão compartilhado a hashtag #MeToo (eu também) caso tenham sofrido algum tipo de assédio sexual. Até agora já foram mais de meio milhão de compartilhamentos. Esta é a minha história. Convido você também a dividir a sua.

#MeToo
#EuTambém

(Foto por Francisca Derqui)

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