Eu e o Manú


Quando eu tinha 17 anos, fui apresentada (forçadamente) a Manuel Bandeira, o cara que até então eu conhecia como o “obcecado por sapos”. O nosso encontro, a princípio, foi meio apressado. Fui apresentada a ele porque queria passar no vestibular e fiquei sabendo que ele podia me ajudar. Ele, por outro lado, não tinha a menor idéia de quem eu era e não estava com muita vontade de saber. Foi um encontro sem graça e meio a contra-gosto, mas foi.

Não sou muito do tipo que faz amizade por dó, mas nesse caso foi assim que aconteceu. O professor Fernando, de literatura do Anglo, chegou um dia e disse que o coitado tinha tuberculose, o que no caso dele era uma sentença de morte. Não vou mentir, fiquei preocupada. Cheguei em casa, pensei no assunto, e resolvi conversar com o Manuel, saber como ele estava lidando com tudo isso. Ele me disse que não era fácil, que pensava frequentemente na “vida inteira que podia ter sido e não foi”. Ele me contou das doenças que tinha como consequencia, do pneumotórax, dos exames, e do chiado em seu pulmão. Ele desabafou por horas, enquanto que eu apenas ouvia e tentava entender como ele se sentia.

 O desabafo dele foi o que nos aproximou. Me senti amiga daquela pessoa tão sozinha e desolada, e com o tempo ele foi confiando ainda mais em mim. O Manuel me contou sobre as histórias de sua infância, das brincadeiras e do balão de São João. Falou até mesmo de seu porquinho da índia, e como o porquinho “só queria ficar debaixo do fogão”. Não tinha como não sorrir enquanto ele contava essa história tão terna! No entanto, ele disse que o porquinho da índia ainda não era melhor que a Teresa, que era a coisa mais bonita que ele já tinha visto.

 Com o tempo, nos acostumamos com a cara um do outro, e ele também passou a me dar conselhos. Um dia, num papo muito sério, ele me avisou: “Se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você e te jurar uma paixão do tamanho de um bonde [...] É lágrima de cinema, é tapeação, mentira, CAI FORA.” Eu cai e agradeci. Depois, quando me apaixonei de novo, o Manu foi um bom ouvinte, aguentou meu liricismo sem pé nem cabeça, e me disse:  “Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma”. Esqueci e casei.

Hoje já são tantos anos de amizade! E o Manuel, sempre querido, me levou até mesmo pra passear em Pasárgada, onde deitei na beira do rio e ouvi das histórias da Rosa. E nesse caminho juntos, choramos, cantamos, passeamos, e amamos. Fizemos poemas sobre tudo isso, e conversamos até altas horas da madrugada.

 Ah, Manuzinho! Você pode não ter me ajudado a passar no vestibular, mas como foi bom te conhecer!

2 comentários

  1. Monica, adoro teu estilo de prosa. De vez em quando passo aqui para ler teus textos. Muito bons. Abracos pra voces

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