Uma lágrima pela inocência perdida

Foto  do concurso de fotografia de 2012 do National  Geographic Traveler

Há tempos me pergunto o porquê de ser tão difícil hoje em dia eu escrever como eu escrevia aqui. O que mudou? Bom, muitas coisas mudaram. Mudou o país, mudou o estado civil, mudou o nível de graduação. Mudou tudo. Mas o que mudou dentro de mim? E o que fez com que eu me tornasse tão insípida com relação ao que acontece ao meu redor?

Eu mudei. Eu perdi a minha inocência.

Não que eu tenha percebido a imperfeição de meus heróis, ou que eu tenha finalmente entendido a violência do mundo. Disso eu já sei há tempos. Mas de alguma forma eu perdi a poesia de viver. Eu caí na vida trabalho, louça, arroz e feijão, e no final esqueci de perceber os detalhes que tornam o viver da vida mágico.

Na minha preocupação em bater o cartão no horário, ter janta quente, fazer um dindinzinho extra e ligar para a família, eu esqueci de ouvir uma música antiga como se fosse pela primeira vez. Esqueci de ler Manuel Bandeira. Esqueci de que me apaixonei por fotografia anos atrás porque não existe nada como eternizar um momento, uma forma. Esqueci de observar os pequenos detalhes que me cercam. Esqueci de como é bom sentir com intensidade. Esqueci de gargalhar e de viver.

Perdi a inocência de acreditar que tudo é mais bonito do que realmente é, ou de ver tudo com mais cores do que o cinza do meu dia-a-dia.

A gente sempre ouve que tem que viver a vida, que só existe uma vida para se viver, etc. e tal. E aí a gente vive e sonha com aquela viagem, com o dia em que a gente vai finalmente criar coragem e pular de paraquedas. E no final, acaba se esquecendo de reparar naquela árvore no caminho de casa, ou de entender o que aquela música no iPod está te dizendo.

Quando foi a última vez que você leu um livro que te tocou? Quando foi a última vez que você se preocupou mais com como estava se sentindo do que com o que estavam pensando de você?

Saudade da minha inocência. Saudade da minha poesia.

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